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Jaraguá do Sul fica no nordeste de Santa Catarina, mas poderia estar na
Europa. Na cidade, o índice de mortalidade infantil, 80% menor do que o
brasileiro, é semelhante ao da Inglaterra. A taxa de analfabetismo beira zero,
como na Suíça. A proporção de homicídios por habitante, um sexto da nacional, é
parecida com a espanhola. As semelhanças não se restringem aos números. A
influência européia é visível nos rostos brancos, nos cabelos loiros, na
arquitetura, nas festas populares, nos pratos típicos e no motor de sua
economia: a indústria têxtil. Imigrantes europeus, em especial os alemães,
trouxeram os primeiros teares para Santa Catarina no fim do século XIX. No
entorno de Jaraguá do Sul, pelo menos doze outras cidades dependem das
tecelagens e confecções. A região é um exemplo acabado da capacidade do setor
têxtil de melhorar o padrão de vida de uma comunidade, e nenhum caso é tão
emblemático quanto o de Jaraguá do Sul.
Antes de ser um pólo têxtil, a cidade era um imenso arrozal. Jaraguá só se
industrializou nos anos 60. Então, teares de fundo de quintal foram substituídos
pelos maquinários de tecelagem e por confecções. A indústria nascente de Jaraguá
se beneficiou do conhecimento técnico herdado dos europeus e da presença de uma
ferrovia que liga a cidade ao porto de São Francisco do Sul e a importantes
centros consumidores. Muitos agricultores migraram para a cidade a fim de
trabalhar nas tecelagens. Para eles, as fábricas serviram como porta de entrada
na classe média, processo semelhante ao que ocorreu em outros lugares do mundo
nos quais a indústria têxtil prosperou. Os antigos arrozeiros passaram a ganhar
mais, dispensaram seus filhos do trabalho e os mantiveram por mais tempo na
escola. O equilíbrio econômico de Jaraguá foi abalado nos anos 90, quando o país
abriu o mercado para os produtos estrangeiros. Para sobreviver, as tecelagens
precisaram se modernizar. Desde 2000, as empresas locais se reorganizaram, cada
uma a seu modo. Hoje, esse setor responde por 22% do PIB da cidade e ajuda a
fazer de Jaraguá uma das cinqüenta cidades brasileiras com maior oferta de
emprego. Um levantamento feito por VEJA mostra que, nesta década, o município
foi o que melhor conseguiu combinar os desenvolvimentos econômico, populacional
e social
A Malwee sobressai entre as indústrias que melhor se reciclaram. A empresa
foi fundada em 1906 como uma fábrica de laticínios. Carregava, então, o nome da
família de alemães que a criou, Weege, que só descobriu sua vocação têxtil há
quarenta anos. Mudou o nome para Malwee, contração de Malharias Weege. Depois
que a concorrência chinesa nocauteou seu negócio, o grupo passou a investir no
mercado interno e em produtos para as classes C e D. Hoje, a Malwee produz 36
milhões de peças ao ano e emprega 6 000 pessoas. O grupo passou a investir na
qualificação de seus funcionários. Pagou, por exemplo, parte do curso de
administração e do MBA da ex-bordadeira Deise Kotchella. Depois de formada, ela
foi promovida ao setor de marketing. "Como esses cursos são caros, eu jamais
teria condições de fazê-los sem a ajuda da Malwee", diz. A relação secular da
empresa com Jaraguá produziu bons dividendos para a cidade. Há trinta anos, a
companhia transformou uma área de 1,5 milhão de metros quadrados em parque,
equipou-o com dezessete lagos artificiais, museu, churrasqueiras e quadras
esportivas e abriu seu acesso ao público. Desde o ano passado, a Malwee passou a
patrocinar um festival de música clássica e doou quatro harpas e um piano de
cauda para um evento.
Enquanto a Malwee apostou nas classes emergentes, a Marisol, outra importante
empresa têxtil local, resolveu focar a clientela mais rica. Nos anos 90, seu
negócio produzia peças de baixo valor agregado. Desde 2000, passou a investir em
design e em grifes renomadas. Para coordenar essa guinada, o grupo até trocou de
comando. Filho de Vicente Donini, o fundador da empresa, o arquiteto Giuliano
Donini, de 33 anos, assumiu o comando. Em 2005, a Marisol comprou a grife
Pakalolo e, no ano seguinte, a Rosa Chá. No mesmo ano, inaugurou uma loja em
Milão, vizinha à da Prada e à da Dolce&Gabbana. Melhor das pernas, a empresa
passou a investir em um programa de reintegração social de ex-presidiários,
fornecendo emprego a eles. Experiências assim já são uma tradição em Jaraguá. Há
vinte anos suas escolas públicas mantêm um educador para cada grupo de oito
crianças. O programa foi custeado, em parte, pelas empresas locais. No fim dos
anos 90, as tecelagens instalaram uma UTI infantil e um banco de sangue no
hospital municipal. Iniciativas como essas mostram o empenho do empresariado
local em constituir um tecido social mais homogêneo e
resistente.
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