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Delfim Netto elogia modelo empresarial catarinense
Por Agência Noticenter   
18 de agosto de 2008

 
  Concorrido: Delfim falou à imprensa com diretores da Sociesc antes de proferir palestra a empresários. Ex-ministro mostrou conhecer a indústria local desde os anos 70, quando fez primeiras visitas a SC

O economista e professor da USP, Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e deputado federal esteve em Joinville na última terça-feira, dia 12 de agosto. Ele veio a Santa Catarina em virtude da comemoração dos 50 anos da Sociesc, para ministrar a palestra “A Educação na Nova Economia” e conversar com empresários a respeito dos ramos da economia brasileira e mundial.

Ao chegar a Joinville, recepcionado por uma equipe de jornalistas de todo o Estado para uma coletiva de imprensa, Delfim Netto foi só elogios a Santa Catarina. Mencionou a força empreendedora da região e a capacidade de agir de forma coerente, assumindo riscos e contornando situações difíceis. Relembrou a criação da Escola Técnica Tupy e a trajetória de sucesso da Sociedade Educacional de Santa Catarina (Sociesc), afirmando que na década de 70, o Estado já estava muito a frente de seu tempo, tanto no empreendedorismo quanto na qualidade tecnológica. “Santa Catarina é um motor de crescimento constante, tem um espírito empreendedor muito forte”, diz. Da mesma forma, relembrou as grandes enchentes de 1983 e 1984, quando o governo tentou intervir para ajudar a região, e enquanto discutiam o que deveria ser feito, os catarinenses assumiram o controle e, mesmo sem grandes ações vindas do governo federal, contornou a situação.

Não se prendendo unicamente ao tema educação, o ex-ministro discutiu sobre assuntos como economia, política e desenvolvimento nacional. Para ele, a educação é tema diretamente ligado à economia. “Educação é a forma na qual o macaco virou homem. Não é só escola, aprender a ler. É a formação do indivíduo como um todo”, explica. “Estamos em meio a um processo de revolução da educação. As universidades particulares estão crescendo de forma representativa, e aos poucos estão ocupando o lugar das faculdades federais”, completa.

Ele afirma que há um novo processo atuando diretamente na educação e na economia brasileira, onde a tecnologia só pode ser bem utilizada se houver educação. De nada vale o poder da tecnologia sem se saber ao certo como e para quê utilizá-la. “Atualmente temos ilhas de grande excelência, num mar de grande ignorância”, afirma. Mas ao mesmo tempo, ele conta que não é verdade o que se diz de que falta mão de obra qualificada. “O Brasil é o 6º país do mundo no uso de internet. Como podem dizer que não tem mão de obra qualificada? Só ignorante usa a internet?”, questiona.

Em meio a um período tumultuado no país, onde se fala corriqueiramente sobre crises e volta da inflação, Delfim Netto esclarece que boa parte da insegurança mundial a respeito de crises econômicas na atualidade é produzida através de uma alta de demanda criada pela expansão da economia chinesa. Como a unidade de medida dos preços internacionais ainda é o dólar, com sua desvalorização, um ar de descrença pode tomar a economia mundial. Ao pensar-se em um longo prazo, porém, a estabilização é rumo certo. O economista afirma que a inflação é cíclica, passando por períodos de alta, de queda, de baixa e de novo crescimento. “É um ciclo que não dá de se prever. Na realidade, só teremos algumas respostas após as eleições norte-americanas. Se os EUA resolverem levantar as taxas de juros, valorizar o dólar, os preços vão se ajustar. Mas nós não vamos voltar aos patamares anteriores de inflação”, opina.

Delfim Netto ficou muito conhecido pelos feitos entre 1986 e 2002 como deputado federal, e também por ter sido um dos mais importantes ministros da história da economia brasileira. O ex-ministro, que considera que “Lula salvou o capitalismo”, diz que não é confiável agir como um Dom Quixote, pensando que é possível resolver todas as mazelas econômicas apenas subindo a taxa de juros. “O problema é que o Banco Central não sabe o que está fazendo. A comunicação mal feita, ao invés de consertar as coisas, só vai desestabilizar ainda mais a economia”, afirma.

De acordo com sua experiência no ramo da economia política, o setor privado é infinitamente mais bem sucedido e organizado que o setor público. Da mesma forma, a taxa de câmbio passou a ser um ativo na economia: se aumenta os juros, automaticamente valoriza o câmbio. Mas isso impõe um custo imenso na economia. E é aí que o Banco Central está errando, de acordo com o ex-ministro.

O importante agora para a economia nacional é que o empresariado, a iniciativa privada, tome consciência de que este é um momento de crescimento econômico para o país. “O PAC é só um punhado de rabiscos, o importante não é o que ele diz realmente, mas o que ele representa. A grande importância dele não é o desenvolvimento do país, mas o fato de ele ter devolvido ao empresário a noção de que é possível crescer”, esclarece o professor. Conforme Delfim Netto, o investimento público em infra-estrutura ajuda diretamente o negócio privado. “Se eu construo uma boa rodovia ligando uma grande fábrica a um porto, vou aumentar automaticamente a produção da fábrica, com ganho de força e tamanho”, explica.

Com isso, chega-se à conclusão de que o setor privado reencontrou o espírito do crescimento. Só há, na opinião do ex-ministro, dois grandes fatores que podem abortar o crescimento econômico do país: uma crise energética ou uma crise em conta corrente. Hoje, as duas coisas já estão bem controladas.

As perspectivas do país no campo energético são otimistas, e com a recente descoberta de novos poços de petróleo, a perspectiva só tenda a melhorar ainda mais. “O Brasil é muito avançado no quesito energia renovável. Aqui, cerca de 45% da energia é renovável, enquanto no restante do mundo este número não passa dos 18%”, compara. O destaque do país é para a produção de combustível alternativo sem precisar criar uma crise no setor alimentício. Temos um grande avanço na produção de etanol, por exemplo. Se a Europa precisa se utilizar de soja ou beterraba na produção de etanol, o Brasil pode utilizar outras formas, como através da mamona, o que oferece muito mais energia, além de não comprometer o setor de alimentos.

CARREIRA DE DESTAQUE

Delfim Netto é considerado o ministro da Economia mais poderoso que já assumiu o cargo, tendo conduzido o país durante sete anos com taxas de crescimento de 10,16%, na média, ao ano. Em oito anos de forte crescimento, o Brasil passou da 48ª posição para o 8º lugar entre as maiores economias mundiais. Como ministro do Planejamento, na década de 80, comandou a economia brasileira durante a segunda maior crise financeira mundial do século 20, causada pelo choque dos preços do petróleo e pela elevação dos juros americanos para 22% ao ano.

No início de sua carreira pública, Antonio Delfim netto foi membro do Grupo de Planejamento do governo do Estado de São Paulo e da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai e conselheiro do Conselho Nacional de Economia. Delfim escreve semanalmente para veículos da imprensa como Folha de São Paulo, Valor Econômico e a revista carta Capital.

Matéria publicada em 13/08/2008

 
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