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Concorrido: Delfim falou à imprensa com diretores
da Sociesc antes de proferir palestra a empresários. Ex-ministro mostrou
conhecer a indústria local desde os anos 70, quando fez primeiras visitas a
SC |
O economista e professor da USP,
Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e deputado federal
esteve em Joinville na última terça-feira, dia 12 de agosto. Ele veio a Santa
Catarina em virtude da comemoração dos 50 anos da Sociesc, para ministrar a
palestra “A Educação na Nova Economia” e conversar com empresários a respeito
dos ramos da economia brasileira e mundial.
Ao chegar a Joinville, recepcionado por uma equipe
de jornalistas de todo o Estado para uma coletiva de imprensa, Delfim Netto foi
só elogios a Santa Catarina. Mencionou a força empreendedora da região e a
capacidade de agir de forma coerente, assumindo riscos e contornando situações
difíceis. Relembrou a criação da Escola Técnica Tupy e a trajetória de sucesso
da Sociedade Educacional de Santa Catarina (Sociesc), afirmando que na década de
70, o Estado já estava muito a frente de seu tempo, tanto no empreendedorismo
quanto na qualidade tecnológica. “Santa Catarina é um motor de crescimento
constante, tem um espírito empreendedor muito forte”, diz. Da mesma forma,
relembrou as grandes enchentes de 1983 e 1984, quando o governo tentou intervir
para ajudar a região, e enquanto discutiam o que deveria ser feito, os
catarinenses assumiram o controle e, mesmo sem grandes ações vindas do governo
federal, contornou a situação.
Não se prendendo unicamente ao tema educação, o
ex-ministro discutiu sobre assuntos como economia, política e desenvolvimento
nacional. Para ele, a educação é tema diretamente ligado à economia. “Educação é
a forma na qual o macaco virou homem. Não é só escola, aprender a ler. É a
formação do indivíduo como um todo”, explica. “Estamos em meio a um processo de
revolução da educação. As universidades particulares estão crescendo de forma
representativa, e aos poucos estão ocupando o lugar das faculdades federais”,
completa.
Ele afirma que há um novo processo atuando
diretamente na educação e na economia brasileira, onde a tecnologia só pode ser
bem utilizada se houver educação. De nada vale o poder da tecnologia sem se
saber ao certo como e para quê utilizá-la. “Atualmente temos ilhas de grande
excelência, num mar de grande ignorância”, afirma. Mas ao mesmo tempo, ele conta
que não é verdade o que se diz de que falta mão de obra qualificada. “O Brasil é
o 6º país do mundo no uso de internet. Como podem dizer que não tem mão de obra
qualificada? Só ignorante usa a internet?”, questiona.
Em meio a um período tumultuado no país, onde se
fala corriqueiramente sobre crises e volta da inflação, Delfim Netto esclarece
que boa parte da insegurança mundial a respeito de crises econômicas na
atualidade é produzida através de uma alta de demanda criada pela expansão da
economia chinesa. Como a unidade de medida dos preços internacionais ainda é o
dólar, com sua desvalorização, um ar de descrença pode tomar a economia mundial.
Ao pensar-se em um longo prazo, porém, a estabilização é rumo certo. O
economista afirma que a inflação é cíclica, passando por períodos de alta, de
queda, de baixa e de novo crescimento. “É um ciclo que não dá de se prever. Na
realidade, só teremos algumas respostas após as eleições norte-americanas. Se os
EUA resolverem levantar as taxas de juros, valorizar o dólar, os preços vão se
ajustar. Mas nós não vamos voltar aos patamares anteriores de inflação”,
opina.
Delfim Netto ficou muito conhecido pelos feitos
entre 1986 e 2002 como deputado federal, e também por ter sido um dos mais
importantes ministros da história da economia brasileira. O ex-ministro, que
considera que “Lula salvou o capitalismo”, diz que não é confiável agir como um
Dom Quixote, pensando que é possível resolver todas as mazelas econômicas apenas
subindo a taxa de juros. “O problema é que o Banco Central não sabe o que está
fazendo. A comunicação mal feita, ao invés de consertar as coisas, só vai
desestabilizar ainda mais a economia”, afirma.
De acordo com sua experiência no ramo da economia
política, o setor privado é infinitamente mais bem sucedido e organizado que o
setor público. Da mesma forma, a taxa de câmbio passou a ser um ativo na
economia: se aumenta os juros, automaticamente valoriza o câmbio. Mas isso impõe
um custo imenso na economia. E é aí que o Banco Central está errando, de acordo
com o ex-ministro.
O importante agora para a economia nacional é que o
empresariado, a iniciativa privada, tome consciência de que este é um momento de
crescimento econômico para o país. “O PAC é só um punhado de rabiscos, o
importante não é o que ele diz realmente, mas o que ele representa. A grande
importância dele não é o desenvolvimento do país, mas o fato de ele ter
devolvido ao empresário a noção de que é possível crescer”, esclarece o
professor. Conforme Delfim Netto, o investimento público em infra-estrutura
ajuda diretamente o negócio privado. “Se eu construo uma boa rodovia ligando uma
grande fábrica a um porto, vou aumentar automaticamente a produção da fábrica,
com ganho de força e tamanho”, explica.
Com isso, chega-se à conclusão de que o setor
privado reencontrou o espírito do crescimento. Só há, na opinião do ex-ministro,
dois grandes fatores que podem abortar o crescimento econômico do país: uma
crise energética ou uma crise em conta corrente. Hoje, as duas coisas já estão
bem controladas.
As perspectivas do país no campo energético são
otimistas, e com a recente descoberta de novos poços de petróleo, a perspectiva
só tenda a melhorar ainda mais. “O Brasil é muito avançado no quesito energia
renovável. Aqui, cerca de 45% da energia é renovável, enquanto no restante do
mundo este número não passa dos 18%”, compara. O destaque do país é para a
produção de combustível alternativo sem precisar criar uma crise no setor
alimentício. Temos um grande avanço na produção de etanol, por exemplo. Se a
Europa precisa se utilizar de soja ou beterraba na produção de etanol, o Brasil
pode utilizar outras formas, como através da mamona, o que oferece muito mais
energia, além de não comprometer o setor de alimentos.
CARREIRA DE DESTAQUE
Delfim Netto é considerado o ministro da Economia
mais poderoso que já assumiu o cargo, tendo conduzido o país durante sete anos
com taxas de crescimento de 10,16%, na média, ao ano. Em oito anos de forte
crescimento, o Brasil passou da 48ª posição para o 8º lugar entre as maiores
economias mundiais. Como ministro do Planejamento, na década de 80, comandou a
economia brasileira durante a segunda maior crise financeira mundial do século
20, causada pelo choque dos preços do petróleo e pela elevação dos juros
americanos para 22% ao ano.
No início de sua carreira pública, Antonio
Delfim netto foi membro do Grupo de Planejamento do governo do Estado de São
Paulo e da Comissão Interestadual da Bacia Paraná-Uruguai e conselheiro do
Conselho Nacional de Economia. Delfim escreve semanalmente para veículos da
imprensa como Folha de São Paulo, Valor Econômico e a revista carta
Capital.
Matéria publicada em
13/08/2008
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