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Filosofia que gera lucros
Por Agência Noticenter   
12 de agosto de 2008
 
 

Silene Seibel atua com consultorias em empresas e palestras em todo Brasil

   
  MBA em Lean Manufacturing está com inscrições abertas em Blumenau 
   
  No intuito de preparar e certificar os profissionais interessados em Lean Manuffacturing, o IBES FGV SOCIESC traz a Blumenau o curso do Instituto Superior Tupy (IST) de Pós-graduação em Lean Manufacturing, cujas aulas tem início previsto para o mês de agosto.

As inscrições estão abertas. Entre em contato e tenha mais informações sobre o curso.
 


LINHA DIRETA
Visite o site da Sociesc/FGV em Blumenau
(47) 2111-2929

   
   

Aumentar a produção com redução de custos é o sonho de qualquer indústria, não importa o segmento de atuação. Os japoneses transformaram o desejo em realidade através da chamada Lean Manufacturing (Manufatura Enxuta), ou Sistema Toyota de Produção. A filosofia, criada inicialmente para a indústria automobilística, engloba uma série de atitudes que visam acabar com o inimigo número um das fábricas bem–sucedidas: o desperdício. Em Santa Catarina, empresas como a centenária Karsten recorreram ao sistema Lean. No primeiro ano de adoção do modelo Toyota, a terceira maior têxtil do Brasil voltou a obter crescimento, mesmo tendo registrado o maior prejuízo de sua história no ano anterior.

A engenheira Silene Seibel é especialista na aplicação da filosofia Lean em indústrias e acumula experiência como consultora e executiva em empresas de diferentes segmentos. Silene esteve em Blumenau para ministrar uma palestra para diversos empresários e gestores da indústria têxtil catarinense. O Noticenter participou do evento e traz com exclusividade uma série de dicas práticas que farão com que a sua empresa possa começar a implantar uma nova forma de trabalho. 

“O mais importante para uma empresa que queira adotar a filosofia Lean é aprender a combater o desperdício diário no chão de fábrica. O Sistema de Produção Toyota é um padrão de excelência em gestão e pode ser adaptado em diferentes tipos de organizações. No caso das indústrias têxteis existem grandes desafios. A fábrica precisa ser flexível, inovadora, ter velocidade na entrega, mas também oferecer a melhor qualidade, ao mesmo tempo em que necessita reduzir os custos de produção continuamente”, destaca Silene.

“De início, é essencial ter líderes com conhecimento, crença, comportamento e atitudes de acordo com a filosofia Lean. O desperdício está nos detalhes e o líder precisa estar atento, aprender a enxergar os desperdícios em atividades que nos passam despercebidas pelo hábito que temos de fazer as coisas de uma certa maneira. Isto se faz com a presença do líder para acompanhar periodicamente as atividades no chão de fábrica. Relatórios, papéis, nem sempre mostram a realidade da empresa, pois podem representar a realidade do dia anterior, com dados condensados que não ajudam a identificar a causa raiz dos problemas. Acabamos por atacar apenas os sintomas dos problemas, que voltam a acontecer pela mesma causa: um grande desperdício”, acrescenta.

“Não se pode apenas confiar em dados, é preciso acompanhar e verificar na prática, perguntando aos operadores o porquê dos problemas. Os operadores são especialistas no processo em que atuam, mas temos uma cultura de pouca valorização da inteligência dos trabalhadores. Acabamos separando o fazer operacional da melhoria do processo, entregando esta responsabilidade para profissionais técnicos ou engenheiros que muitas vezes não conhecem os detalhes da prática e podem não ter a humildade de perguntar para os que fazem o trabalho no dia-a-dia. Este é um desperdício da inteligência dos trabalhadores, um erro que os japoneses não cometem”, alerta a consultora.

Segundo a especialista, os gestores que queiram adotar o sistema Toyota em sua indústria têxtil precisam realizar ações adequadas a cinco princípios. “O primeiro deles é de que tudo o que o cliente não está disposto a pagar é desperdício e, por isso, custo desnecessário. A grande variedade do mix dos produtos acabados e a renovação constante das coleções pode se tornar um desperdício. Calcula-se que cerca de 60% do faturamento das empresas têxteis se concentram em menos de 30% dos modelos fabricados. Sem uma análise de valor rotineira, onde as equipes de criação e engenharia estudam que modelos realmente contribuem para a formação do faturamento, repetem-se lançamentos de peças com baixo desempenho de venda, simplesmente pela febre de mostrar grande diversidade. O cliente pede variedade, mas ele paga por ela? Como a novidade é a alma do negócio da moda, as empresas tendem a exagerar na variedade e com ela vai o lucro. O cliente precisa identificar o valor no produto ou não estará disposto a pagar por ele”, assinala.

“É necessário eliminar as atividades que não agregam valor para o cliente. Outro ponto é a introdução e manutenção de um fluxo contínuo, que evite paradas e interrupções na produção”, explica Silene.

“As indústrias precisam ‘puxar a produção’, reduzir ao máximo os estoques e ter agilidade na reposição somente dos produtos que foram comprados pelos clientes. É preciso evitar a programação por previsão e estoques de modelos que no fim da coleção precisam ser vendidos como saldos e com altos descontos, que corroem as margens duramente construídas com as peças que tiveram giro no ponto de venda. Fluxo contínuo e produção puxada estão a serviço dos baixos estoques. A produção Lean costuma reduzir pela metade os níveis de estoque que as empresas operam. As indústrias devem guiar a produção pela demanda do cliente, sem produzir quantidades demasiadas que podem ficar paradas”, enfatiza a especialista.

“E sempre buscar a perfeição através da exposição e solução dos problemas. Eliminar o erro a partir da exposição e busca das causas raiz. O erro é uma mina de ouro, atrás dos erros que cometemos diariamente no desenvolvimento do produto, na engenharia, no planejamento e na produção, é que se esconde o desperdício e os custos que o cliente não está disposto a pagar”, adiciona a consultora.

COMO FUNCIONA UMA PRODUÇÃO ENXUTA

“O primeiro passo é enxergar os desperdícios e ver nos problemas verdadeiras oportunidades de melhoria. A empresa deve estabelecer uma meta, como por exemplo, solucionar um problema por dia. A Toyota, em nível mundial, recebe e implementa um milhão de sugestões de melhoria por ano. Este é o segredo de uma montadora que lucrou mais em 2006 do que a GM, a Ford, a Daimler Crysler e a Honda juntas. Foi o combate ao desperdício durante os últimos 50 anos que levou a montadora a  conquistar a posição de maior e mais lucrativa do mundo em seu segmento. Colaboradores e gestores precisam atuar em conjunto na busca por problemas. Perguntar-se o que poderia ser melhorado na empresa, e o porquê dos problemas, sem receber represálias e se envergonhar das respostas encontradas”, diz a engenheira.

Segundo a consultora, em uma indústria que segue a filosofia Lean as seguintes situações são inaceitáveis, pois são desperdícios:

- Observar máquinas funcionando: para Silene, o trabalho das máquinas e das pessoas deve ser separado. Existem equipamentos inteligentes programados para parar quando produzem fora do padrão de qualidade especificado, e por isso, não necessitam do acompanhamento humano. Somente na parada da máquina é necessário assistência.

- Ter colaboradores a espera de material de trabalho: o trabalho dos colaboradores deve ser balanceado para não haver tempo ocioso.

- Controle de estoque: Silene declara guerra aos estoques, pois são considerados pelos japoneses os maiores responsáveis pelo desperdício. “O estoque exige espaço para armazenamento, pessoas para controlar, computadores, softwares de controle e soluções de transporte. São os maiores responsáveis pelo desperdício em uma empresa”, afirma. Deve ser evitado também o estoque entre processos, ou seja, ter um material esperando por um próximo procedimento devido à produção em grandes lotes.

- Perder tempo procurando ferramentas e material, trocando matrizes e equipamentos para produção de novos lotes: a organização visual do local de trabalho e a padronização das atividades é chave para evitar o desperdício. É preciso trabalhar para a redução dos tempos de troca (troca de cores em um equipamento de tinturaria, por exemplo).

- Conserto de equipamentos: a manutenção preventiva é a única forma de evitar o desperdício de tempo e mão-de-obra na parada de máquina. “Uma dica que serve tanto para defender o conceito de organização como o de manutenção preventiva é observar, ou até mesmo filmar, um profissional consertando um equipamento. Veja o quanto a demora em encontrar ferramentas ou a movimentação até o armário de ferramentas e materiais pode afetar na ocupação da mão-de-obra que está sendo utilizada. Não raro representa 50% do tempo de troca”, destaca Silene.

- Retrabalho: o segredo é procurar não errar já na primeira vez. O retrabalho toma tempo e pode influenciar na qualidade do produto. “A qualidade assegurada na fonte é outro ponto crucial, pois evita a economia ilusória. É preciso verificar a regularidade do tecido e ter em mente quatro pensamentos: não comprar, receber, produzir ou repassar produtos com defeito”, enfatiza a especialista. Esta atitude deve ser treinada nos operadores para garantir a redução do retrabalho.

ATITUDES LEAN PARA A INDÚSTRIA TÊXTIL

Silene explica que na indústria têxtil aproximadamente 50% dos custos está na matéria-prima. “Cuidar da matéria prima é essencial. Economizar na compra nem sempre é a única opção, pois a qualidade do que compramos também interfere no grau de desperdício. Se o tecido tem uma qualidade inferior, exige o descarte de retalhos, o rejeite de peças de segunda qualidade, por exemplo. O aproveitamento no encaixe para o corte é outra dica importante. Antes de adotar um encaixe para o corte, é preciso realizar um estudo dos moldes e verificar qual a melhor opção de encaixe. A observação da mesa de enfesto, do aproveitamento do encaixe e da execução no chão de fábrica do corte revela perdas de tecido que podem alcançar 20%, um valor muito representativo no custo do produto final”.

“O empresário que ficar atento a sua mesa de enfesto descobre uma ótima forma de evitar desperdício, por isto a importância de participar ativamente das atividades no chão de fábrica. A chegada da malha é um ponto importante. Ela deve ser pesada e, após o corte, deve-se subtrair o peso dos retalhos do valor total da malha. Assim, é possível obter com precisão o volume de desperdício real, não confiando somente nos valores muito otimizados dos relatórios. Vá ao chão de fábrica e veja com os próprios olhos.”, sugere a consultora.

Silene afirma que o desperdício pode estar escondido também na forma de armazenamento da matéria-prima. Amarrar rolos de malha e deixar o material no chão pode amassar e sujar o produto e dificultar o enfesto, pois torna mais trabalhoso o posicionamento dos tecidos para o corte.

O chamado refilo na confecção é outro grande vilão dos desperdícios. “É comum entre as empresas que os gestores não acompanhem fisicamente esta outra mina de ouro. Fazer o mesmo trabalho várias vezes, ou ter que refazer uma peça para tentar aproveitar o material nem sempre é uma boa escolha. Há um grande desperdício de tempo e pode interferir na qualidade da peça. O gestor precisa conferir os números de refilo, acompanhar fisicamente o cotidiano da fábrica e não ter como base apenas os relatórios. O empresário deve buscar sempre os números reais ‘com os próprios olhos’, e não só os números muito bons que aparecem nos relatórios sobre a situação do dia anterior, da semana ou do mês anterior. Esta é uma forma de achar o problema e, conseqüentemente, de pensar soluções para a melhoria enquanto o problema está acontecendo”, destaca Silene.

“O caminho que a Toyota trilhou para se tornar a montadora mais lucrativa e a maior do mundo oferece grandes lições para as empresas. É uma cultura de trabalho baseada na humildade, na busca transparente dos problemas reais, na presença do líder no chão de fábrica para buscar junto com os operadores a cauda raiz dos problemas. É atrás dos problemas que se escondem as oportunidades de melhoria, que se escondem os desperdícios e o custo que o cliente não está disposto a pagar”, conclui a consultora.
 
Matéria publicada em 06/08/2008.

 
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